Com as próprias mãos

Por Alex Alcantara

Minha mãe sempre foi muito boa comigo e com a minha irmãzinha. Sempre nos levava para passear nos parques, nunca nos deixou desamparada e sempre foi muito atenciosa. Ela acordava cedo, ligava o rádio e ia para a cozinha. O cheiro do café que adentrava o meu quarto, me aguçava e já me deixava desperta. Logo em seguida, levantava e ia para frente da televisão assistir aos desenhos inócuos. Aquela atmosfera de sons da TV e do rádio, da minha mãe cantarolando junto com a música, das minhas risadas com os barulhos dos cartoons, se misturavam ao olfato que pairava no ar, do cheiro de café fresco ao da manhã, aquele aroma eminente, do começar de novo.

No período vespertino, minha mãe me levava ao colégio, com a minha irmã no colo. Minha mãe costumava falar com muitas pessoas, com a Maria da quitanda, com o João do Bar, com a Zefa da avícola. Sempre muito gentil com todas as pessoas e muito boa com todas elas. Às vezes, ao me deixar na escola, ela ia à igreja e ficava a maioria da tarde lá, rezando. A volta para a casa era sempre mais animadora. Meu pai, que encontrava minha mãe na igreja, ia me buscar de carro, e eu adorava, pois me poupava a caminhada.

Chegando a casa, o cheiro da carne com batata já fazia com que meu estômago ronquejasse. Minha mãe mal esperava eu entrar e já ia tirando os lacinhos da minha cabeça, e pela casa ia me despindo. Jogava a blusa na sala, a calça na cozinha e minha mãe me seguia, às vezes rindo, outras zangada, mas todo dia era  a mesma coisa, a mesma rotina. Após o banho sentávamos todos à mesa, rezávamos e começávamos a comer. Minha mãe sempre muito atenta a neném, nunca lhe deixava só. A televisão também se mantinha ligada no período noturno. Meus pais assistiam aos telejornais sensacionalistas que exibem essas atrocidades mundanas. Não deixavam com que eu observasse ou ouvisse essas notícias, diziam que para uma garota jovem como eu, os desenhos bastavam-me. Enquanto assistiam, eu subia para o meu quarto e fazia meu dever. Quando precisava de auxílio, meus pais sempre estavam presentes. Essa rotina simples era o que ocorria todos os santos dias, nada demais acontecia, e éramos felizes assim, éramos completos.

E era mais um dia comum, não tão comum assim. Antes de ir para a escola iríamos passar na feira, e não teria almoço, seria pastel com caldo de cana. Eu amava! Posteriormente minha mãe iria para a igreja como de costume. Cheguei à escola, minha mãe me beijou na testa e disse que me amava muito. Dei um beijo na testa da minha irmã e entrei no colégio. Estava um dia bonito, tudo estava bem.

Deu a hora de ir embora. Arrumei minhas coisas, despedi das minhas colegas e corri para o portão. Geralmente meus pais sempre estão na portaria quando saio, mas nesse dia isso não ocorreu. Aguardei uns 15 minutos e nada dos meus pais. Achei estranho. Pensei que pudessem ter me esquecido, me gelou a barriga. Como não morava muito distante dali, resolvi caminhar. Na passagem para casa vi um amontoado de pessoas, gritando, falando palavrões, com pedaços de pau na mão. Fiquei aterrorizada! Era horrível a cena. Então comecei a me aproximar, trêmula, com muito medo. Todas as pessoas que gritavam, batiam juntas em uma única pessoa. Injustiça! Aquilo me amedrontou mais ainda, então dei um passo atrás.

As pessoas ficavam realmente muito distintas do que elas realmente eram. Ficavam com semblantes desumanos, endemoniadas. Aquilo realmente me assustara. Em estado de pânico não conseguia sair dali. E então a polícia chegou, e todos os “justiceiros” que estavam ali, saíram correndo com o corpo. Como estava distante, não consegui distinguir se era uma mulher ou um homem, mas o pobre ser humano havia apanhado muito, pois havia muito sangue no local. Naquele momento só queria a minha mãe, estar em casa, tomando meu banho, espalhando as roupas pela casa. Quando todos foram embora, decidi ir para a casa, mas percebi que no local do furdunço todo, havia um livro. Me aproximei e o peguei. Era uma bíblia. Comecei a folheá-la e então uma foto caiu de dentro dela, era a foto que minha mãe carregava de mim e da minha irmã. Então uma lágrima escorreu do meu olho.

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