Mãe

Por Laio Rocha

De repente, a lágrima correu sem muito tempo de pensar em segurar, somente desceu o rosto e ela sentiu uma breve cócega, enquanto escorria até seu pescoço aquele fio de água. Sua mão tremeu e seus lábios secaram, e então, como que chamando as demais, a lágrima que já se escondia sob o queixo, chamou outra, e outra, e quando se viu, todo o rosto já estava banhado, os olhos avermelhados como que sangrando, refletiam o ódio, que não era seu.

A sua vista embaçada pelo choro, só pode ver quatro homens segurando um caixão marrom escuro, muito simples, totalmente fechado. Eles lentamente com gestos maquinais, desdenhosos a quem visse de longe, foram abrindo espaço para jogar no imenso buraco de sete palmos o morto.

Cada passo deles era seguido por uma lágrima da senhora ao centro. Ela usava uma camisa preta de veludo, acompanhada por uma saia na mesma cor, rendada em formatos de flores, e por fim, um mocassim marrom de sujeira, extremamente surrado. As canelas finas tremiam e a bochecha negra ardia. O cabelo estava esvoaçado, jogado ao ar, e as mãos o percorria afoitas por encontrar nalgum lugar ali, um alívio.

Quando o caixão tocou o sétimo palmo da terra e finalmente dois homens pegaram as pás e começaram a cobrir de terra, ela fechou os olhos e escorreu uma última gota dos olhos. Ela se lembrou daquela tarde, quando estava na sala da casa da sua patroa, observando como as crianças branquinhas, com a bochecha rosada, corriam pela casa, brincando de coisa qualquer. Quando viu isso veio à sua mente seu filho quando moleque, correndo dum lado para o outro com os primos, pega-pega, esconde-esconde, agora a memória já não guardava tanta informação. Um último suspiro e veio então, como um tiro saindo dum revolver carregado, o olhar de seu filho acompanhado do bonito sorriso, ela quase pode sentir seu abraço carinhoso e o beijo na testa antes de sair de casa naquele mesmo dia pela manhã.

Assim, como a lagrima que quando foge os olhos inevitavelmente cai, também as boas lembranças sempre sucumbem às ruins. Correu por sua espinha um calafrio e ela, de olhos fechados, ouviu o grito dos filhos da sua patroa dizendo que o celular dela estava tocando, quando ela correu para atender e a notícia apalpou-lhe o coração como um cego titubeante, sem saber para onde vai, e achou o coração, agarrou com força e estrondosamente puxou. Disse a voz de sua filha “Mãe… mãe…” cada palavra intercalava com um soluço, o medo resfriou sua pele e ferveu os miolos “Mãe… Mataram ele, mataram meu irmão… ele estava no bar com os meninos e a polícia matou todos eles… Mataram ele mãe!”.

Daquela frase em diante já não habitava naquele corpo um ser. Depois daquilo tudo sumiu. Sua alma foi habitar outra esfera e o corpo tornou-se então um breve algo que há de viver por algum tempo, porém sem sentido de ser.

Ela abriu os olhos. O caixão já havia sido completamente coberto. Ela jogou um pequeno ramo de rosas brancas que estavam na sua mão, ajoelhou-se, tocou a terra com a mão e abaixou a cabeça. Ela vivia, porém estava morta, assassinada pela mesma arma que habitou a mão cinza do Estado de ódio.

Justiça

Mais!

A fotografia de Isa Anália

Com as próprias mãos

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2 Respostas para “Mãe

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